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Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Roni Pereira
Comentário · mês passado
Boa tarde.

Pelo que entendi, o que você está sugerindo é: há uma única e verdadeira versão da história de Jesus Cristo, a que diz que ele era hétero ou assexual, não sei. Portanto, filmes ou outras produções que contrariem esta versão deviam ser proibidos ou retirados para não gerar "desinformação". Há vários problemas aí.

Primeiro, é um filme de ficção do gênero comédia, amigo. E um filme ficcional de comédia não tem obrigação de informar, pois o objetivo é meramente divertir. Filmes com esta mera finalidade não precisam sequer ter verossimilhança.

Além disso, será que existe no Brasil, um país com mais de 80% de cristãos (católicos, evangélicos...) tanta gente que não conheça a perspectiva institucional-cristã sobre a história de Jesus Cristo que está na Bíblia?

Segundo, ainda que fosse um filme "baseado em fatos reais" ou um documentário que afirmasse que Jesus foi gay, não teria problema nenhum. Abordar a história de Jesus não é a mesma coisa que abordar a história de uma pessoa física. Estou negando a existência do Jesus histórico? Não. Estou dizendo que a vida de Jesus, por ser um personagem de um tempo longínquo e sem uma construção histórica totalmente consensual, está mais aberta a especulações e que a versão que as igrejas têm dele não deve ser imposta como a única especulação legítima e verdadeira.

Uma pessoa física, como um escritor ou outro artista falecido, por outro lado, tem uma história que pode ser defendida por parentes que entendam que a honra foi atacada. Essas pessoas estão autorizadas a falar em nome deles, daí é mais complicado dizer qualquer coisa sem ser processado. Mas Jesus não é uma pessoa física e os cristãos não estão legitimados a falar em nome dele.

Pode se dizer qualquer coisa sobre Jesus. As discordâncias devem ser resolvidas no livre debate de ideias, como a contestação de um historiador ou outro intelectual, seja cristão ou não, e não mediante censura. Se você está preocupado com desinformação, então faça um outro filme crítico da paródia, embora eu não veja nenhum sentido em responder um filme de comédia.

Terceiro, sobre o filme que ataca os advogados, eu não vejo nenhum problema. Você fala que o filme atacaria "todos advogados". É uma abordagem genérica, sem atingir alguém em específico. Então o filme poderia ser uma crítica à profissão.

Poderia haver problema se o filme atacasse algum advogado em específico, uma pessoa física, e este poderia processar os responsáveis caso sentisse que sua honra foi difamada ou caluniada. É um caso muito diferente da paródia do Porta.

Obs: não sou advogado. Sou jornalista.
Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Roni Pereira
Comentário · mês passado
Boa tarde. Obrigado pelo comentário.

Nem eu apoio liberdade de expressão irrestrita. Referente ao comentário citado, me refiro à ofensa subjetiva, aquela que não se enquadra em nenhuma lei. Eu sei muito bem que como jornalista eu não posso difamar ninguém.

A ofensa que cristãos dizem sofrer por causa da paródia do Porta dos Fundos é meramente subjetiva, não tem amparo na descrição das leis. Tanto é verdade que o STF derrubou a censura. Não há nenhuma lei que possa criminalizar a paródia.

Dizer que o Porta dos Fundos ultrajou "objeto imaterial" é que "não possui amparo no ordenamento jurídico" e é "pensamento ideológico particular seu". Veja o que significa "imaterial":

"que ou o que não tem consistência material, não é da natureza da matéria, não tem existência palpável; impalpável."

Insisto, as leis do direito penal devem ser detalhistas, específicas, para não causarem insegurança jurídica por conta das margens de interpretação que se abrem com imprecisões. "Vilipendiar objeto imaterial" não diz absolutamente nada, considerar tal expressão como entendimento do artigo 208 abre precedentes para censurar qualquer sátira ou até mesmo críticas contra o cristianismo que cristãos entendam como "ofensivas". Em suma, nada mais é do que criminalização da expressão, do pensamento, pois não há outra forma de "vilipendiar objeto imaterial" senão por meios de se expressar. Você está defendendo a inconstitucionalidade.

"Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição .
§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Você utiliza de expressões bastante amplas, abstratas, vagas. Diz que ninguém pode ridicularizar "religioso". Correção: ninguém pode escarnecer um religioso em específico e em público por motivo de sua crença, mas criar artisticamente um estereótipo para ridicularizar o modelo abstrato de indivíduo cristão, do muçulmano etc. é permitido SIM. Como, por exemplo, uma imitação de pastor ou padre. Você vê isso o tempo todo na TV. Por outro lado, um discurso de ódio contra cristãos através de alguma peça artística que utiliza de um modelo abstrato do cristão pode sim se configurar como crime. Mas como eu já disse em outros comentários, não há nenhum discurso de ódio no filme do Porta.
Da mesma forma, ninguém pode ridicularizar um ateu em público, por sua descrença, caso haja constrangimento, pois isto se configurará como preconceito e discriminação. Mas pode parodiar ateus via imitações com base em modelos abstratos, por exemplo.

Como assim Saramago e Nietzsche (nunca li Dan Brown) "não ridicularizam tampouco praticaram o escárnio e o aviltamento da fé e das tradições dogmáticas"? AHAHAHAHA, você nunca os leu né? Já fizeram pior que o Porta dos Fundos. Só pra citar um exemplo, em "O Anticristo", Nietzsche diz que se deve ler o Novo Testamento com luvas para não se sujar com a imundice. Quer escárnio maior que esse?

Claro que compreendo o caráter cultural da religião. Mas a sua comparação não tem fundamento nenhum, porque não há preconceito religioso no filme. O único preconceito é dos cristãos homofóbicos que não aceitam uma releitura de Jesus como gay.

Você está fazendo nada mais do que defesa da censura, amigo. Você acha que releituras "desrespeitosas" de Jesus devem ser proibidas. Você acha que deve haver uma representação absoluta e oficial de Jesus e que o Estado deve monitorar obras e proibir o que "ofender" o "Jesus absoluto" e determinado pela religião. É uma pregação pela volta do censor oficial. Embora eu não concorde com nada do que você diz, é sua opinião, mas as leis não são como você queria que fosse (graças a Deus!) e, portanto, o Porta não cometeu crime nenhum. O filme deve continuar no ar.
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