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8 de Março de 2021

Banalização da morte de trabalhador no Carrefour e fundamentalistas cristãos contra "abortistas", há relação?

Apesar de serem fatos dispersos, tais ocorrências são, na verdade, amostras que simbolizam o "projeto" de país sonhado pela direita bolsonarista

Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Publicado por Roni Pereira
há 7 meses

Nos últimos dias, ocorreram acontecimentos que estarreceram o brasileiro de bom senso:

1) extremistas de direita/fundamentalistas cristãos se reuniram em frente ao hospital onde se faria o aborto (autorizado pela justiça) em uma criança de 10 anos, que engravidou após anos de violência sexual praticada por um parente, para tentar impedir o procedimento e tachar os médicos responsáveis de "abortistas", "assassinos", entre outros impropérios. Os dados da menina foram expostos em redes sociais pela ativista bolsonarista Sara Winter.

2) um trabalhador de uma loja Carrefour no Recife morreu em serviço. Em vez de fechar o estabelecimento e comunicar ao serviço funerário para que o corpo do homem fosse recolhido, a empresa simplesmente optou por cobrir o cadáver com guarda-sóis e isolá-lo dos clientes por meio de barreiras improvisadas. Nem a morte pode "atrapalhar" a jornada de funcionamento da loja.

Apesar de serem fatos dispersos, tais ocorrências são, na verdade, amostras que simbolizam o "projeto" de país sonhado pela direita bolsonarista e que pode ser sintetizado na frase "conservador nos costumes, liberal na economia". Não se diz aqui que todo conservador e/ou liberal defende tais barbáries, mas que o bolsonarismo adequa tal princípio ao populismo de direita nacional. Em termos mais específicos, autoritarismo cristão combinado com capitalismo desregulado/predatório seria o modelo de sociedade idealizado pela extrema-direita brasileira.

Os extremistas de direita que foram azucrinar os médicos "abortistas" certamente se consideram "conservadores nos costumes". "Em defesa da vida", exigiam que a menina de 10 anos prosseguisse com a gravidez de risco e tivesse o filho de um parente pedófilo que destruiu sua infância. A mesma direita que passou anos enchendo o saco com teorias conspiratórias idiotas como "kit gay" (fazendo a preconceituosa associação entre homossexualidade e pedofilia), e que se diz combatente da pedofilia "da esquerda", indiretamente quer que o estuprador tenha o "direito" de ter filho com a criança ou mulher que ele conseguir estuprar? Pois essa é a consequência quando se proíbe aborto em qualquer circunstância. Misoginia hedionda.

"Em defesa da vida", a extrema-direita brasileira quer retroceder os direitos das mulheres até o período anterior à década de 1940.

Na economia, propõe a busca desenfreada pela maximização do lucro e o "minha empresa, minhas regras" sem qualquer tipo de limites. A respeito da morte do trabalhador, o Carrefour disse que seguiu a "orientação (de quem?) de não retirar o corpo do local". Fechar a loja até o corpo ser recolhido significaria perder potenciais clientes, e os lucros estão acima da dignidade do trabalhador.

Além disso, qualquer regulação e/ou proteção social que punam ou coíbam atropelos a tal dignidade seriam ruins ao funcionário e atrapalhariam a produtividade e o crescimento econômico, diz um dos dogmas liberais.

O Carrefour, aliás, virou alvo de protestos em 2018, porque um de seus seguranças espancou um cachorro até a morte.

Cerceamento aos direitos das minorias. Liberdade total ao empresariado. Eis o Brasil que os bolsominions sonham.

8 Comentários

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Tempos sombrios! Perfeita análise! Parabéns! continuar lendo

Muito obrigado pelo elogio, Jefferson. continuar lendo

Vamos ser sinceros: a MESMA Sara que o artigo aponta é a que era de esquerda, que defendida o feminismo em sua forma radical, a ponto de ser RADFEM e mostrar peito na rua! É a MESMA que fazia a pauta de esquerda, e ninguém estava aí...

Daí ela resolveu buscar público na direita, então “bora jogar uns problemas aí”...

Daí vem na quebra aquela “crítica” (pré-fabricada) contra o pensamento liberal que, obviamente, não tem base nem em 1/100 do que o pensamento liberal diz. Engraçado que nem a história do Brasil consegue escapar, afinal, foi o pensamento liberal quem batalhou por nossa democracia (e não essa bobagem mentecapta de esquerda). “Ah, o liberalismo malvadão, que só pensa no lucro desenfreado”... pensamento típico de Sara Winter. Imagina ler um Antônio Paim, né?!

E isto só é um Brasil dos bolsominios? Como se não houvesse um pessoal de esquerda que é idêntico, só com sinais trocados... continuar lendo

Caramba, mostrar os peitos na rua, que ato hediondo! Que crime cruel, meu Deus!! Mas ninguém estava nem aí, que absurdo!!

Aí ela foi para a direita e começou a perseguição contra ela né? Tadinha, não se pode nem expor crianças na internet, nem pedir fechamento do STF... Parece que o comentarista, que se passa por defensor do pensamento liberal, não vê nada de grave nisso, acha apenas que jogaram "uns problemas aí". Ruim mesmo é mostrar os seios...

De resto, você:

1) usa de falácia do verdadeiro escocês. "não tem base nem em 1/100 do que o pensamento liberal diz". Tem base em muito mais que isso, rapaz. Especialmente naquele liberalismo que prioriza mais a liberdade econômica do que as liberdades civis. Hayek , Friedman e Mises são exemplos de liberais que seguem essa cartilha. Vai dizer que eles, que sempre defenderam capitalismo desregulado, não são liberais? Vai dizer que não há liberalismo que defende redução de direitos trabalhistas em nome da produtividade e do crescimento econômico? Vai negar que há liberais que acham que quaisquer regulações econômicas atrapalham a economia? A não-intervenção do Estado na economia e na sociedade não é um princípio liberal?

2) falsifica a história ao dizer que foi "o pensamento liberal quem batalhou por nossa democracia", ou seja, como se só os liberais fossem democratas por aqui. A esquerda, que foi perseguida pelas ditaduras que houve por aqui, não foi oposição contra elas pela democracia? A esquerda não estava nas diretas já? Não participou da constituinte?

3) usa de falácia do espantalho ao caricaturar meu argumento (“Ah, o liberalismo malvadão, que só pensa no lucro desenfreado”). No texto eu deixo bem claro que nem todo liberal é assim. Apesar de defenderem redução do Estado, há liberais mais à esquerda que priorizam mais as liberdades civis que a econômica. Não vou dizer que um Norberto Bobbio é "liberal malvadão".

4) usa de falácia tu quoque ("Como se não houvesse um pessoal de esquerda que é idêntico, só com sinais trocados..."). Ainda que isso seja verdade, não anula meu argumento. continuar lendo

É deprimente escrever A, e daí alguém ler B é responder C. É sintomático em relação ao nosso ensino...

Mas vamos tentar ilustrar, porque assim a pessoa pode vir a entender...

Quando eu falo da Sara Winter, não estou aqui não vendo “nada grave” no que ela faz, mas sim situando o leitor — inclusive você — naquilo que ela faz: buscar um nicho para aparecer. Ela mostrava peitos na esquerda não porque ela era uma feminista radical: é porque ela descobriu um nicho para se destacar. E ela virou essa “radical” de direta pelo mesmo motivo: descobriu um nicho para se destacar.

Você, obviamente, não entendeu isto!

Daí a mídia vem usando ela como se fosse algo que tivesse o condão de dominar nosso país. Pura ignorância política! A maioria não está nem aí para Sara Winter, como nunca esteve quando ela “era” de esquerda. A estupidez que ela cometeu em relação à criança é basicamente algo para a bolha dela, ou a bolha que vê alguma relevância — fora a questão jurídica — de algo que ela cometeu, como você!

Então, toda sua acusação posterior de algo que não vi “nada grave” nisto é, sem sombra de dúvidas, um probleminha com a sua cabeça. A minha crítica é dirigida à uma coisa, e a sua mentalidade é presa em outra. Por isso você insinua algo que não tem nada a ver com meu comentário.

Quanto ao “guia” infantil de falácias do Wikipedia, vamos na ordem contrária...

“Tu quoque” seria se eu estivesse querendo desqualificar sua opinião em uma hipocrisia sua, quando, na verdade, eu tento contextualizar seu artigo em algo que já existe. A única hipocrisia, de verdade, é observar isto de um único ângulo; a partir de determinado momento. Já errou na classificação da falácia...

Na “falácia” do espantalho, erra por completo: aquilo é uma ironia, justamente para demonstrar a demonização do liberalismo. E o desconhecimento do mesmo. Aquele nome que dei ali, que passou totalmente despercebido de você (Antônio Paim), mostra como pessoas se baseiam em Sara Winter ao invés de estudar a história do nosso país.

E isto só demonstra que, quando me acusa de “falsificar a história”, a sua ignorância é latente: a história da democracia no Brasil surge na divergência entre liberais que defendiam a monarquia constitucional, a república e os liberais radicais (ou democraticismo). Se você tivesse lido o Antônio Paim, saberia disto. Nosso início do século passado era bombardeado pelas inspirações autoritárias, que, em primeiro momento, se deu pela esquerda (Getúlio Vargas), e depois pela direita (militares, via Castelo Branco). E somente uma parte da esquerda lutava pela democracia, que era a de vertente trotskista. Os liberais sempre defenderam a via democrática, como Rui Barbosa e José Osvaldo de Meira Penna.

Por fim, a cereja do bolo: que meu argumento seria “falácia do escocês de verdade”. Para essa verdadeira falácia — deu sua parte — dar certo, você precisaria ter estudado o liberalismo, algo que, de forma clara, nunca fez. Tanto é que repete o mantra de “ Hayek , Friedman e Mises são exemplos de liberais que seguem essa cartilha“, confundido escolas, pensamentos e até os autores — o que é normal em quem quer aprender liberalismo jogando no Google. O que um monetarista está fazendo com dois austríacos? O que um ortodoxo se igualaria com um heterodoxo? Mises usa métodos de estatística e matemática como o pessoal da escola de Chicago?

Daí eu fico pensando... porque você não PROVOU que eles defendem algo perto do que você alegou? Sério, pode até recorrer à escola austríaca, mas traz algo que fundamenta isto. Até te dou uma dica: vai para os anarcocapitalistas, mas cuidado que Friedman já diz:

“Por mais atraente que possa o anarquismo parecer como filosofia, ele não é praticável num mundo de homens imperfeitos. As liberdades dos homens podem entrar em conflito, e quando isto acontece, a liberdade de uns deve ser limitada para preservar a dos outros — como está ilustrado por uma frase de um juiz da Suprema Corte de Justiça: ‘Minha liberdade de mover meu punho deve ser limitada pela proximidade de seu queixo’.”

Sendo mais direto: esse “liberal que os bolsominios” sonham é o verdadeiro espantalho, de algo que só ocorre na mente de uma minoria que se acha, dentro de uma bolha, a representação do Brasil. É por isso que dá tanta importância à Sara Winter... continuar lendo

Deprimente é alguém escrever A e depois dizer que não quis dizer A, mas o oposto de A.

"Quando eu falo da Sara Winter, não estou aqui não vendo “nada grave” no que ela faz, mas sim situando o leitor — inclusive você — naquilo que ela faz: buscar um nicho para aparecer. Ela mostrava peitos na esquerda não porque ela era uma feminista radical: é porque ela descobriu um nicho para se destacar. E ela virou essa “radical” de direta pelo mesmo motivo: descobriu um nicho para se destacar. [...] Você, obviamente, não entendeu isto!"

Não entendi isto porque você não disse isto. O que você disse foi: "Vamos ser sinceros: a MESMA Sara que o artigo aponta é a que ERA DE ESQUERDA, que defendida o feminismo em sua forma radical, a ponto de ser RADFEM e mostrar peito na rua! É a MESMA que fazia A PAUTA DE ESQUERDA, e ninguém estava aí... Daí ela resolveu buscar público na direita, então “bora jogar uns problemas aí”...

Não há NADA, neste seu primeiro comentário, análogo ao trecho "Ela mostrava peitos na esquerda NÃO PORQUE ela era uma feminista radical: é porque ela descobriu um nicho para se destacar." O que tem é o CONTRÁRIO, ou seja, você se CONTRADIZ. Veja que você diz neste trecho que ela NÃO É DE ESQUERDA/RADFEM, mas uma oportunista. Em outro trecho do seu comentário mais recente, você até usa o "era" (de esquerda) com aspas. No entanto, no seu primeiro comentário, ipsis litteris, podemos ler: "a MESMA Sara que o artigo aponta é a que ERA (sem aspas)DE ESQUERDA, que DEFENDIDA (sic) o FEMINISMO em sua forma RADICAL"

Ela era uma oportunista que se dizia radfem/esquerdista ou ela era de fato radfem/esquerdista? O Igor do primeiro comentário acredita na segunda tese, o Igor do segundo comentário acredita na primeira.

"Então, toda sua acusação posterior de algo que não vi “nada grave” nisto é, sem sombra de dúvidas, um probleminha com a sua cabeça." --------> Talvez essa sua segunda personalidade veja alguma gravidade, mas o Igor do primeiro comentário veio reclamar dos peitos e não disse nada que indicasse repúdio às posturas antidemocráticas de Sarinha. Ele só disse que se tratavam de uns "problemas jogados". O segundo Igor discorda disso, pois ele agora diz que "A maioria não está nem aí para Sara Winter, como nunca esteve quando ela “era” de esquerda". Ou seja, nunca jogaram "uns problemas aí" quando ela virou de direita. A maioria não está nem aí com ela fazendo bobagem sendo de direita como tbm não esteve quando ela fazia tolice do lado da esquerda. O segundo Igor refuta o primeiro Igor.

"“Tu quoque” seria se eu estivesse querendo desqualificar sua opinião em uma hipocrisia sua" -----> ué, mas foi exatamente o que você fez ao dizer que "Como se não houvesse um pessoal de esquerda que é idêntico, só com sinais trocados...". O pior é que você fez isso para desqualificar algo que eu na verdade nem disse ou insinuei ("E isto SÓ é um Brasil dos bolsominios?"). Onde está escrito ou insinuado no texto algo análogo ou literal a essa sua caricatura? Procure textos meus aqui no JusBrasil e verá críticas minhas à esquerda. Você parece persistir na mesma retórica falaciosa, acusando minha "hipocrisia" de observar de apenas um "único ângulo".

"Na “falácia” do espantalho, erra por completo: aquilo é uma ironia, justamente para demonstrar a demonização do liberalismo" ------> EU SEI que é uma ironia, mas é uma ironia que CARICATURIZA meu ponto de vista. Falácia do espantalho - e você persiste nela -, pois eu não demonizei em nenhum momento o liberalismo. Eu até digo claramente que "nem todo liberal defende essas barbáries". Tá aí no texto, leia direito.

Agora vamos à história democrática brasileira. Veja que você disse que "foi o pensamento liberal quem batalhou por nossa democracia". É um comentário genérico, vago, equivocado. As batalhas pela democracia no Brasil foram várias e eu citei como exemplo a luta pela democratização nos anos 1980. Agora você especifica falando em "início do século passado", ou seja, já disse algo diferente de antes. Erra ao dizer que Getúlio Vargas era "de esquerda". O Estado Novo mimetizava o corporativismo fascista, autoritário e conciliador que abominava o conceito de luta de classes, tanto que proibia greves. E você me dá razão ao dizer que "uma parte da esquerda lutava pela democracia". Novamente, o segundo Igor refuta o primeiro, afinal o que estou dizendo desde o início é que a esquerda também participou das lutas democráticas, não apenas os liberais.

Sobre Hayek, Friedman e Mises. Apontar que eles divergem em pensamento, método e em teorias não refuta o que eu disse. Mesmo discordando em específicos pontos de vista, todos eles defendem capitalismo desregulado. Em "O Caminho da Servidão", Hayek se coloca contrário ao Estado de bem-estar social. Mesma tese que Mises e Friedman adotam. "Capitalismo e Liberdade", de Friedman, é essencialmente dedicado a defender "liberdade econômica" - o Estado não deve intervir na economia.
Você vai negar que eles defendiam o capitalismo laissez-faire? Essa citação de Friedman é inócua, porque eu não disse em nenhum momento que ele era "anarcocapitalista".

"liberal que os bolsominions sonham". Onde foi que eu escrevi isso? Novamente, caricaturando meus argumentos. continuar lendo

Muito longe do projeto de venezualizacao do Foro São Paulo. continuar lendo

Ótimo texto. Parabéns, Roni! continuar lendo