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29 de Março de 2020

O nazismo (des)envergonhado no governo Bolsonaro

Ao plagiar Goebbels, Roberto Alvim imita uma prática antiga de Olavo de Carvalho: a reciclagem de lixo ultradireitista

Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Publicado por Roni Pereira
há 2 meses

O agora ex-secretário especial da Cultura do governo Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, publicou um vídeo em que faz um discurso cujo conteúdo é plágio do notório Ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels. E não apenas isto, ele também usou da trilha sonora de "Lohengrin", ópera criada por Richard Wagner e uma das favoritas do fuhrer. A publicação tinha a finalidade de anunciar o Prêmio Nacional das Artes.

Abaixo, a comparação entre o discurso plagiado e o original:

A ARTE BRASILEIRA DA PRÓXIMA DÉCADA SERÁ HERÓICA E SERÁ NACIONAL, SERÁ DOTADA DE GRANDE CAPACIDADE DE ENVOLVIMENTO EMOCIONAL, E SERÁ IGUALMENTE IMPERATIVA, POSTO QUE PROFUNDAMENTE VINCULADA ÀS ASPIRAÇÕES URGENTES DO NOSSO POVO – OU ENTÃO NÃO SERÁ NADA.
(Roberto Alvim, Secretário Especial de Cultura do Governo Bolsonaro).
"A ARTE ALEMÃ DA PRÓXIMA DÉCADA SERÁ HERÓICA, SERÁ FERREAMENTE ROMÂNTICA, SERÁ OBJETIVA E LIVRE DE SENTIMENTALISMO, SERÁ NACIONAL COM GRANDE PÁTHOS E IGUALMENTE IMPERATIVA E VINCULANTE, OU ENTÃO NÃO SERÁ NADA."
(Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler)

É necessário entender o contexto do discurso de Goebbels, porque irá expor ainda mais as similaridades entre o discurso do nazifascismo e o da extrema-direita atual.

Nos final dos anos 1910 e durante os anos 1920 e 1930, os nazistas costumavam discursar contra o "bolchevismo cultural". Era um termo utilizado para designar a arte moderna, que eles entendiam como "arte degenerada". O discurso de Goebbels tem este caráter.

Qualquer semelhança com o termo "marxismo cultural" não é mera coincidência.

Ambas as expressões têm a pretensão de denunciar uma suposta corrupção esquerdista que atinge a sociedade e ameaça os valores da "civilização" e do ocidente. A diferença é que o "bolchevismo cultural" seria uma "degeneração" que atinge somente a arte. O "marxismo cultural" é mais amplo. Quem propaga esta teoria conspiratória acredita que o esquerdismo está corrompendo até mesmo as instituições educacionais.

Há também nestes termos um repúdio aos valores da modernidade, como o iluminismo e a ampliação democrática.

O pseudofilósofo Olavo de Carvalho, mestre de Alvim e o principal propagador da "tese" do marxismo cultural, odeia tudo que for alheio à escolástica, inclusive a democracia e o iluminismo, a ponto de rejeitar até a física newtoniana (leia aqui). Não é por acaso que ele ama esta teoria conspiratória, como certamente adotaria e morreria de amores pelas denúncias dos nazistas contra o "bolchevismo cultural".

Olavo está tentando se desvincular do simpatizante do nazismo que ele pariu, dizendo que o plagiador de Goebbels "talvez não esteja bem da cabeça". Ora, Alvim está imitando uma prática antiga do ideólogo do governo Bolsonaro: a reciclagem de lixo direitista.

Há pouco mais de 12 anos, o ex-astrólogo da Virgínia copiou trechos de artigos de David Duke, ex-líder do grupo racista e terrorista Ku Klux Klan, com a finalidade de atacar uma professora negra, no contexto do Massacre de Virgínia Tech, em 2007 (leia aqui).

Plagiar conteúdo ultradireitista é um modus operandi de Olavo de Carvalho. E agora há discípulo dele fazendo o mesmo. Não se trata de "problema na cabeça", mas de uma prática olavista.

Interessante é que (ex) membros do governo estão perdendo o pudor de se assumirem abertamente como simpatizantes ou admiradores do nazismo ou de elementos do nazismo. É melhor que se assumam como lixos neonazistas, em vez de espalharem mentiras canalhas como "nazismo é de esquerda".

2 Comentários

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Curioso que um assassino como Guevara seja reverenciado pelos vermelhos sem ser criticado.
Guevara era médico que jurou salvar vidas mas tinha prazer em sentir o cheiro de sangue das vítimas.
https://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/958649-leia-trecho-da-obra-que-mostra-lado-brutal-de-che-guevara.shtml

Curioso. Nesta hora não vale a liberdade de expressão que o STF entendeu para o ataque aos cristãos.

Curioso. Lula elogiou Hitler e Khomeini e nada aconteceu com ele. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/21/brasil/10.html

Hipocrisia é um bom termo para toda esta situação.

Dois pesos e duas medidas como preconiza o Marxismo Cultural da Escola de Frankfurt. continuar lendo

Curioso é o direitista que apoia um presidente a favor da tortura, de ditaduras assassinas e dos grupos de extermínio acusar Che Guevara de ser "assassino". Vou usar da falácia tu quoque que você tanto adora. Se você tivesse um pingo de coerência, estaria chamando Guevara de "mito", afinal a guerrilha dele executou, entre outros, onze criminosos. Mas como ele é dos "vermelhos", você o chama de "assassino". A única hipocrisia aqui é a sua.

Chamar um guerrilheiro de assassino é mesmo que chamar um lutador de MMA de violento.

O que poderia acontecer a Lula? Em 1994, ele não ocupava cargo público nenhum. Hoje temos um secretário da cultura que plagia Goebbels nos discursos, na trilha sonora e na cenografia. Dinheiro público não deve financiar lixo nazista. continuar lendo