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29 de Março de 2020

O que significa a frase "Tudo para o Estado, nada contra o Estado..."?

Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Publicado por Roni Pereira
há 7 meses

1. A resposta está no entendimento a respeito da significação da palavra |Estado|. Direitistas costumam acusar Benito Mussolini de |esquerdismo| por causa desta frase. O problema é que há aí um conflito de significações. O que estes direitistas entendem por |Estado|? O que os fascistas clássicos entendiam por |Estado|? (Muitas vezes estes direitistas e os fascistas se confundem).

2. Supondo a existência de um dicionário fascista (talvez até exista), qual seria o significado do verbete |Estado|? Vamos delimitar ainda mais o jogo de linguagem e questionar o que seria dentro desta expressão fascista em análise.

3. Se preciso levantar dúvidas sobre o que Mussolini quis dizer quando falou em |Estado|, significa que a frase descontextualizada deixa o termo impreciso. Para compreender, preciso inseri-la num contexto, numa específica regra de um específico jogo de linguagem.

4. Não sabemos ainda e nem os próprios direitistas sabem direito o que eles querem dizer quando falam em |Estado|. Se refere à entidade concreta| |Estado||, que tem funções administrativas e é composta de funcionários? A algum ministério do governo? Às forças de segurança pública? Se a PM age a mando de um governo estadual para agredir manifestantes, seria o |Estado| (ou seria ||Estado||?) agindo?

5. Quando a direita se diz |anti-Estado|, ela quer dizer que é contra abusos da PM contra manifestantes de esquerda? contra violência policial? ou contra programas de bem-estar social e regulação econômica ou contra aumento de impostos?

6. O termo |Estado| tem flexibilidade de significações. Podemos afirmar que a significação de |Estado| usada por estes direitistas para acusar o fascismo de esquerda é distinta da significação para os fascistas clássicos.

7. Quando confrontamos ambas significações, notamos que direitistas compreendem |Estado| no sentido econômico ou, numa linguagem wittgensteiniana, segundo regras do jogo de linguagem da terminologia das ciências econômicas. |Estado|, para estes direitistas, é um agente econômico. Para eles, |Tudo para o Estado| seria, então, uma frase que advoga planificação econômica, aos moldes do que havia na URSS. Mas devemos nos atentar à imprecisão e abstração desta significação direitista de |Estado|. Ela não leva em consideração a complexidade que existe na sociedade, como a separação entre âmbito econômico e social na atuação do ||Estado||. Por isto, |intervenção estatal| significa, para eles, intervenção nas |liberdades individuais|. Pode-se dizer que dentro deste significante ||Estado||, economia e liberdades civis/individuais se confundem.

8.Por isto, a conclusão simplória "|liberdade econômica| = |liberdade individual|" e "|Intervenção estatal| = |autoritarismo| ou |totalitarismo|". Se a esquerda defende alguma |intervenção|, como regulação econômica, é acusada de |totalitária|; e a direita advogando |liberalismo econômico| se afirma como defensora da |liberdade| (esta postura é muito conveniente para os donos do dinheiro que querem nos fazer crer que liberdade irrestrita para o mercado implica em liberdade para a sociedade). Mussolini afirma |Tudo para o Estado| e o direitista entende como |intervenção estatal| ou |planificação econômica|. Como a esquerda também "defende" |intervenção| e a URSS teve planificação, o Duce só pode ser um |esquerdista|. Eis o raciocínio destes que leem o astrólogo da Virgínia e outros picaretas.

9. Mas |Estado| dentro desta frase fascista não tem significação segundo as regras do jogo de linguagem da economia. Num hipotético dicionário fascista, ao se referir à expressão de Mussolini, |Estado| provavelmente apareceria como sinônimo de |nação|. Mas não é o único significado que encontraríamos.

10. Vamos tornar as coisas mais complexas. Imaginemos duas edições deste dicionário fascista. Uma antes do Duce ser Duce, ou seja, antes de tomar o poder; outra depois de ter instaurado a ditadura fascista. Na edição antes do assumir o governo, leríamos que |Estado|, para o fascista, também é "uma infraestrutura pública" (Stanley, 2019, p. 150) que pode oferecer conforto e bem-estar social para |parasitas| que não são |autossuficientes|. |Nação|, por outro lado, é um significante que designa |coletividade| de independentes capazes de sacrificar por uma finalidade comum. Em suma, na primeira edição, |Nação| e |Estado| são antagônicos.

11. Todavia, na segunda edição, aparecem como sinônimos, como eu disse anteriormente. Isto porque o fascismo passou a ter controle sobre o Estado e o reconfigurou tanto seu significado quanto a sua estrutura concreta. Como escreve o professor Jason Stanley (2019, p.149): "No fascismo, o Estado é um inimigo que deve ser substituído pela nação. [...] A ideologia fascista envolve algo pelo menos superficialmente semelhante ao ideal libertário de autossuficiência e de liberdade em relação ao Estado".

12. Mussolini certamente repudiava o significante |Estado|, cujo significado no dicionário fascista se refere ao agente econômico que fornece programas de bem-estar social para |parasitas| e |vagabundos| que não gostam de |trabalho duro|. Assim como "nossos" direitistas, tipo Bolsonaro, também repudiam.

13. Podemos inferir que o Duce se referia à |Nação| quando citou |Estado| na expressão. Importante lembrar que o conceito de |totalitarismo| afirma existir uma ideologia que fundamenta o governo, uma ideologia que submete a todos, inclusive empresários, que poderiam ter suas empresas e participar da economia caso se curvassem. No dicionário fascista, |Estado| pode também aparecer como sinônimo de |ideologia|.

Referência:

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. Porto Alegre: L&PM Editores, 2019.

2 Comentários

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O Autor ignora que Mussolini era um dos líderes do Partido Socialista Italiano, de orientação marxista, redator chefe do jornal oficial do partido, o Avanti! e filho do ativista socialista Alessandro Mussolini? Sugiro a leitura do livro Il compagno Mussolini, de Nicholas Farrell e Giancarlo Mazzuca. Se não ignora, deve saber que Mussolini continuou com os mesmo ideias comunistas, exceto em dois pontos: Passou a defender o nacionalismo ao invés do internacionalismo marxista, pois percebeu durante a primeira guerra que o nacionalismo era capaz de mobilizar as multidões, coisa que as ideias socialistas (até hoje) não eram capazes. e a utilização do capitalismo e da iniciativa privada em favor do social, ao invés de sua extinção, como prega o marxismo. Percebo que a esquerda brasileira se esquece que o marxismo não monopoliza a ideia socialista e tende a classifica a todos os adversários políticos indistintamente como direita. Quem sabe estes artigos contribuam para esclarecer definitivamente que tanto o Fascismo como seu derivado Nazismo são de outra corrente socialista que não marxista, e, portanto, de esquerda? http://vulcanostatale.it/2014/10/mussolini-socialista-lagitatore-romagnolo-alla-guida-de-lavanti/
http://www.lanuovabq.it/it/mussolini-dal-socialismo-al-fascismo
http://www.store.rubbettinoeditore.it/il-compagno-mussolini.html continuar lendo

Você omite inúmeras informações ao dizer que "Mussolini era um dos líderes do Partido Socialista Italiano" para sustentar a tese de que ele era um esquerdista ou que o fascismo era de esquerda (é um erro personalizar tal movimento político). Omite que ele foi EXPULSO do partido, porque fazia parte da ala reformista que apoiava a "política imperialista da burguesia" e instava "a entrada da Itália na guerra" (cf: https://www.marxists.org/glossary/orgs/i/t.htm). Mussolini nunca continuou com "ideais comunistas" porque ele NUNCA os teve. Quem apoia guerras com motivações imperialistas (domínio econômico dos monopólios empresariais sobre outros países) não tem nada de comunista, pra começar. Portanto, desde o período no partido socialista, ele já defendia ideais incompatíveis com o marxismo. Você tá completamente equivocado ao dizer que o marxismo advoga "utilização do capitalismo e da iniciativa privada em favor do social, ao invés de sua extinção". O marxismo é mais radical: preconiza a substituição do capitalismo pelo comunismo; o socialismo é a transição de um para outro.

Com base em quê você afirma que o socialismo não "era capaz de mobilizar as multidões"? Não tem nem cabimento a comparação com hoje. No final do século XIX e no início do século XX, o termo "socialismo" era tão popular que atraía até gente de direita contrária ao capitalismo (mas não contrária à propriedade privada), sistema visto como responsável por destruir "tradições" e a "família" (confira as críticas de Chesterton ao capitalismo; ele não era socialista, mas argumentava que o capitalismo "separou a família" e "desprezou as velhas virtudes domésticas" ). Hoje em dia o conservadorismo defende o capitalismo porque este sistema econômico é o status quo, mas nem sempre foi assim. E atualmente o socialismo é visto com repúdio até entre algumas vertentes de esquerda, por causa da associação do termo com ditaduras do século XX. continuar lendo