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13 de Outubro de 2019

O que é o Movimento Acredito?

Como o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han pode ajudar a entender a "nova política" brasileira

Roni Pereira, Estudante
Publicado por Roni Pereira
há 3 meses

O movimento Acredito é um antipartido, representante daquilo que o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han chamou de "pós-política" [1], que é sinônimo de despolitização. Um antipartido não tem cor, porque se pretende "desideologizado", ou seja, supostamente desprovido de ideologias. A pretensa dissolução das ideologias no campo político é resultado do processo de positivação social: ao não resistir ao "curso raso do capital" [2], a sociedade perde suas cores, tornando-se transparente e igual.

A consequência é a reconfiguração do acontecimento político-social, a criação de algo novo, que deixa de ser determinado por antagonismos de ideologias e classes (passam a ser consideradas como "arcaicas"). A perda das cores, das ideologias, caracteriza a uniformização da sociedade, gerando, portanto, a inexistência de conflitos.

A constatação deste fato está nas palavras da própria Tabata Amaral e de seus colegas de movimento, que insistem ad nauseam em rejeitar a "polarização" política e social. Em abril, a deputada chegou a dizer que "essa coisa de esquerda e direita ameaça a democracia". Esta postura é vista como "nova" porque, como dito antes, os antagonismos de classes, partidos ou ideologias são consideradas "obsoletos".

A pós-política - que, importante repetir, é o mesmo que despolitização - rejeita pressupostos ideológicos, porque dá importância total à técnica. A ação pós-política é operacional porque pode ser subordinada a "um processo passível de cálculo, governo e controle" [3]. Por isto, seus agentes rejeitam princípios e diretrizes partidárias. Para os membros do Movimento Acredito, os dados puros substituem qualquer programa de partido ou qualquer preocupação de classe. Suas opiniões pretendem ser despojadas da excitação e penetração espiritual que são características da política com ideologia.

Em suma, é o seguinte: como não teria divergência ou conflito de cores numa sociedade sem cores, tudo seria igual, não teria a divisão "esquerda x direita". Portanto, os dados, pretensamente imparciais e consensuais, devem decidir os rumos sociais. A falta de conflitos numa sociedade positivada e uniformizada, no entanto, não implica na ausência de violência. Sem antagonismos, o consenso é violentamente imposto pela totalidade do capital, "que abarca todos os processos sociais" [4]. Na área econômica, o consenso da vez é a "necessidade" de uma específica reforma da previdência.

Quem se opõe ao consenso com base na consciência de classe, como é o caso dos partidos de esquerda, é considerado como "bolorento". Quem acata o consenso é visto como "nova política".

Notas de referência

[1] Byung-Chul Han. Sociedade da Transparência, p.23

[2] Idem, p. 10

[3] Idem, p.10

[4] Idem, p.11

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