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13 de Outubro de 2019

Notas sobre o artigo de Tabata Amaral na Folha (14/07)

Apesar de condenar as amarras ideológicas, Tabata adere a essa reforma adotando um discurso ideológico

Roni Pereira, Estudante
Publicado por Roni Pereira
há 3 meses

1. Segundo Tabata Amaral, ser contra a reforma da Previdência de Bolsonaro/Guedes/Maia é "amarra ideológica"; ser a favor não é, é "postura técnica", pois há "estudos" e "evidências" apontando essa reforma como necessária para a justiça social no país. Cara deputada, esta é uma retórica muito utilizada pela direita e extrema-direita brasileira: os ideólogos são os outros, nunca nós mesmos. Como assim uma "reforma" que abstrai as particularidades da sociedade, tratando gente como número, e a retórica que a advoga, impondo benefícios para banqueiros e empresários como universais, não têm "amarra ideológica"? "Estudos" e "evidências" sempre serão úteis para racionalizar a ideologia, deputada. Aliás, também há estudos e evidências apontando que essa reforma é ruim para os mais pobres. Sobre isso, recomendo a leitura dos estudos do Professor de Economia da Unicamp Eduardo Fagnani.

2. Tabata faz distinção entre extrema-esquerda e centro-esquerda. A primeira, segundo ela, está engessada em concepções do século XX ou antes; parte da segunda "quer dialogar com o contexto e a sociedade e caminha para se modernizar". O que ela quer dizer é que a esquerda moderna deveria entender a necessidade de uma reforma da previdência. Isto, em parte, está correto. O equívoco é achar que isso implica em apoiar qualquer reforma. A reforma de Bolsonaro/Guedes/Maia não é A reforma, é possível elaborar alternativas, como a proposta do próprio partido dela e poderia haver outras, se a oposição de fato fosse mais informada. A ausência dessas propostas, no entanto, não deveria ser usada como carta branca para apoiar a PEC governista que prejudica o eleitorado que o PDT diz defender.

3. Tabata acha que determinado partido deve representar toda sociedade e não nichos. Isto é impossível. A sociedade não é homogênea; há conflitos de interesses entre grupos que a constituem. Por exemplo: nem sempre o que é bom para o empresário e para o banqueiro significa que é bom para o trabalhador (na maioria das vezes, não é). Quando o partido está no poder, deve se governar para toda sociedade. Mas mesmo governando "para todos" inevitavelmente se escolhe um grupo para privilegiar. A pluralidade partidária existe para representar a pluralidade na sociedade. Se não fosse assim, só precisaríamos de um partido. Partido único supostamente representando toda sociedade homogênea é característica de país totalitário.

4. Claro que discordâncias são necessárias para a boa política, Tabata. Elas existem em quase todos os partidos. Nenhum partido político é homogêneo; há uma tendência dominante nele, porém há facções, que a constituem, que discordam desta tendência. Mas você deveria entender que partidos têm princípios, diretrizes, ideologia. É uma questão de identidade, Tabata. O PDT é um partido trabalhista; não faz sentido ter nele discordâncias antitrabalhistas. A sua discordância foi contra a identidade partidária. É o mesmo que ter tendências de direita num partido de esquerda e vice-versa, não faz sentido, gera confusão. Alguém veria alguma coerência haver uma discordância marxista dentro do partido Novo? Se eu voto num candidato do PDT, eu espero que ele seja contra a reforma de Bolsonaro porque eu me identifico com as diretrizes do partido, que são contrárias a essa reforma; se ele vota a favor, vou me sentir traído, pois não era isso que eu esperava de um pedetista.

5. Apesar de condenar as amarras ideológicas, você adere a essa reforma adotando um discurso ideológico. Veja como sua retórica é abstrata - uma característica da ideologia-, pois desconsidera as particularidades concretas da sociedade, como a diversidade; nela também há a universalização de ideias - outra característica da ideologia-, pois implica que o que é vantajoso para a classe empresarial também é para o povo, quando na maioria das vezes (e nesse caso em específico) não é.

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