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29 de Março de 2020

Venezuela e a falsa dicotomia da esquerda

Apoiando um governante desastroso e autoritário como Maduro, parte da esquerda manda um grande “foda-se” para o povo venezuelano

Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Publicado por Roni Pereira
ano passado

O déspota Nicolás Maduro é indefensável. Presidente desastroso, populista e autoritário, ele causa sofrimento ao povo venezuelano.

Os dados mostram o que é a gestão do “líder” chavista: (hiper) inflação acumulada de 1.300.000 % entre novembro de 2017 e novembro de 2018, com previsão para superar 10.000.000 % em 2019; crise migratória que resultou num êxodo venezuelano de 3,3 milhões de pessoas desde 2015; a taxa de desemprego atingiu 33.350% em dezembro de 2018; a pobreza afeta 48% da população. Há escassez de comida, remédios, água e transporte.

Os problemas não atingem só a economia. A repressão de Maduro viola direitos humanos de forma sistemática: assassinatos de manifestantes, torturas e prisões arbitrárias. A brutalidade policial se intensificou, o que colocou a Venezuela como o país mais violento da América Latina em 2018: 81,4 homicídios a cada 100.000 habitantes, segundo o Observatório Venezuelano de Violência.

E não é só isso. Indicadores da Transparência Internacional colocam a Venezuela como o país mais corrupto da América Latina. Cálculos do legislativo estimam prejuízo patrimonial de US$ 450 bilhões em 19 anos de chavismo, que além de ser um modelo caudilhista e populista, tem fortes indícios de ser, também, cleptocrata.

No âmbito político, Maduro – através da Assembleia Nacional Constituinte - anulou o Parlamento da Venezuela, dominada democraticamente pela oposição, em 2017. A última eleição presidencial, em maio de 2018, foi marcada por denúncias de fraude.

Diante destes problemas, não há argumentos que justifiquem o apoio à Nicolás Maduro. Todavia, parte da esquerda encontrou um “atalho” para defendê-lo.

O truque é simples: utilizar de um oponente político ainda pior e criar uma dicotomia que não existe. Esse oponente é o imperialismo americano. Assim, certos esquerdistas determinam: ou apoia Maduro ou apoia intervenção americana de Donald Trump na Venezuela. Com isso, se alguém é contra o tirano, só pode defender as pretensões golpistas e imperialistas dos yankees.

De fato, não se deve apoiar nenhuma intervenção norte-americana – deve se defender a autodeterminação do povo venezuelano. E, ao mesmo tempo, não se deve defender a permanência de Maduro - um péssimo, violento e antidemocrático presidente - muito menos tratá-lo como vítima. Há outras opções, que provam que esse dilema proposto por setores da esquerda é falso. Uma alternativa, inclusive defendida por outros países, é a convocação de novas – e limpas – eleições, desde que seja o desejo da população.

Ao defender Maduro, inclusive adotando teorias conspiratórias para isso, parte da esquerda demonstra não se importar com o sofrimento do povo. Historicamente, o compromisso deste espectro político é com os mais vulneráveis, os oprimidos, não com quem oprime, só para ser contrário a um “mal maior”.

“Socialismo do século XXI”

No âmbito econômico, o chavismo nunca conseguiu fazer com que a Venezuela deixasse de ser um país dependente do petróleo. Reconhece-se a melhora da qualidade de vida do povo mais sofrido no governo de Hugo Chávez, que se aproveitou dos altos preços do barril, condicionados ao mercado internacional, para melhorar os índices socioeconômicos. Com a estatização do petróleo, os lucros puderam ser utilizados em programas sociais. Propuseram construir um “socialismo do século XXI”, mas as políticas públicas, totalmente dependentes do comércio além das fronteiras, deixaram o bem-estar venezuelano também dependente do capitalismo internacional.

Com Maduro, as coisas só pioraram. Através de medidas extremamente intervencionistas, como reduzir preços via ordem presidencial, ele acabou falindo lojas, pois a margem de lucro do setor privado foi limitada. Também limitou o lucro do empresariado em 30%, fixou preços dos automóveis (cuja produção ficou sob controle estatal) e estabeleceu que o valor dos aluguéis deveria ter um teto. O resultado dessas práticas foi aumento da inflação e redução do PIB per capita, pois o empresariado começou a retaliar, sabotando economia com escassez de produtos básicos. Tudo isso só fez agravar a dependência do petróleo no país.

O que o chavismo fez de bom ficou no passado, hoje só traz problemas e sofrimento. Apoiando um governante desastroso e autoritário como Maduro, parte da esquerda manda um grande “foda-se” para o povo venezuelano.

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