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29 de Março de 2020

O "socialismo" de Adolf Hitler

O nome "socialismo" indica oposição ao capitalismo, mas no início do século XX, essa oposição não era exclusividade da esquerda

Roni Pereira, Escritor de Não Ficção
Publicado por Roni Pereira
há 2 anos

A esta altura, todos (ou quase todos) conhecem a esquete: a Embaixada da Alemanha em Brasília publicou um vídeo institucional no Facebook cujo objetivo era mostrar como os alemães lidam com o nazismo e o Holocausto nos dias de hoje. No conteúdo do vídeo contém a afirmação de que nazifascismo era um movimento de extrema-direita, o que é um fato e consenso entre historiadores de todo o mundo. No entanto, como já é comum na internet , essa asserção despertou a fúria de uma militância direitista que, com a arrogância asinina que lhe é característico, quis ensinar a própria história da Alemanha aos alemães.

Um dos argumentos brilhantes utilizados é: os nomes "socialismo" e "trabalhadores" presentes no nome do partido nazista (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores) indicam sua essência esquerdista. Militantes de direita fazem essa associação a partir do que se entende hoje por "esquerda" e "direita": o trabalhismo e socialismo são ligados a movimentos de esquerda e "Estado mínimo" ligado à direita.

É preciso esclarecer algumas coisas: 1) a noção do que temos hoje de esquerda e direita não é a mesma de dezenas de décadas atrás; 2) o nome "socialismo" é genérico, pode indicar movimentos de esquerda e de direita que surgiram no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Como eu escrevi no meu texto "O anticapitalismo de direita": "Esquerda e direita têm essências que são atemporais (por ex. defesa da igualdade x defesa de hierarquias), mas ambos espectros se adequam às suas determinadas épocas, por isso não são estanques". E o nome "socialismo" indica oposição ao capitalismo, mas no início do século XX, essa oposição não era exclusividade da esquerda. Não existia ainda nessa época o maniqueísmo "direita capitalista x esquerda anticapitalista".

Como Karl Marx escreveu no Manifesto do Partido Comunista, o capitalismo foi revolucionário, destruiu privilégios, modificou profundamente a sociedade, transformou a economia. Não seria espanto surgir, por exemplo, movimentos opositores ao capitalismo com características reacionárias: como desejar o retorno a um passado supostamente mais feliz antes da ascensão deste sistema econômico.

Nesse contexto de oposição ao capitalismo, surgiram movimentos de direita e esquerda que inventaram suas próprias concepções de "socialismo" e anticapitalismo. O insuspeito economista Friedrich Hayek confirma esta tese no livro "O Caminho da Servidão":

"Na realidade, o que une os socialistas da esquerda e da direita é essa hostilidade comum à concorrência e o desejo de substituí-la por uma econômica dirigida. Não obstante os termos" capitalismo e socialismo "ainda serem usados, em geral, para designar respectivamente as formas passada e futura da sociedade, eles ocultam a natureza da transição que vivemos ao invés de elucidá-la." - (confira a página 66 de "O Caminho da Servidão")

"Ao se evidenciar cada vez mais que esses elementos eram justamente os que constituíam um obstáculo à realização do socialismo, os socialistas da esquerda aproximaram-se cada vez mais dos da direita. Foi a união das forças anticapitalistas da esquerda e da direita, a fusão do socialismo radical e do socialismo conservador, que destruiu na Alemanha tudo quanto ali havia de liberal" . - (confira a página 186 de "O Caminho da Servidão")

O que distingue o socialismo de direita em relação ao de esquerda (marxista) é: seu reacionarismo, sua defesa da propriedade privada, sua negação da luta de classes, sua oposição a qualquer inovação econômica que ameace as tradições e valores de uma sociedade.

Sobre essas ameaças aos valores e tradições, gosto de citar como exemplo o escritor G. K. Chesterton, que não era um socialista, mas tinha uma crítica ao capitalismo: segundo ele, o capitalismo destruiu a família, pois "forçou uma competição comercial entre os sexos", "tirou os homens de suas casas para procurar emprego", "os obrigou a morar perto de suas fábricas ou de suas empresas, em vez de perto de suas famílias" (confira em "Three Foes of the Family"). Certamente, esta crítica era adotada pelo "socialismo conservador" do qual Hayek fala.

Em resumo: o socialismo revolucionário tem influências historicistas, cuja história é um progresso em direção ao comunismo, além de ser internacionalista; o socialismo conservador pretende girar as rodas da história para trás (nas palavras de Marx) e retornar à condição da sociedade antes do capitalismo.

Dito isto, chegamos ao nazismo e Adolf Hitler, que tinha sua própria concepção de "socialismo" e que se enquadra naquilo que seria o "socialismo" de direita, deixemos o próprio fuhrer explicar:

O socialismo [...] é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só. (Entrevista conduzida por George Sylvester Viereck, publicada no jornal Liberty, de 9 de julho de 1932 e republicada no livro: ALTMAN, Fábio (org.) A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias. São Paulo: Scritta, 1995).

No poder, o nazismo demonstrou que sua retórica anticapitalista era fraudulenta: aliou-se com uma burguesia industrial que se borrava de medo do comunismo, confirmando-se como um movimento contrarrevolucionário, uma reação violenta a qualquer ameaça ao capitalismo alemão. Seu programa de privatização confirma o apreço do nazifascismo pelos ideais capitalistas. A perseguição e extermínio de comunistas e outros tipos de esquerdistas confirma seu caráter anti-esquerdista.

Diferente da direita tradicional, o nazifascismo é um movimento que emergiu de baixo para cima, do meio das massas. Não é por acaso que utilizaram de símbolos trabalhistas e nomes de partidos revolucionários. Mas o nazifascismo coopta os trabalhadores não para fazer revolução contra a burguesia, mas para despertar suas energias irracionais em prol de concepções idealistas como "raça" ou "nação". O "nacional" do nome do partido indica seu nacionalismo, que prega conciliação de classes e que trabalhadores e capitalistas têm a mesma identidade de interesses - não tem como enquadrar esse movimento nefasto na esquerda.

A conclusão é muito simples: afirmar que nazismo é de esquerda por causa do nome "socialismo" ou "trabalhadores" é tão patético quanto risível, é um argumento da profundidade de um pires, que não resiste a uma simples pesquisa histórica.

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